Debate sobre a crise nos Museus portugueses?

como-tornar-os-museus-acessiveis.jpg

Debate « Como tornar os museus acessíveis? »
Fundação Calouste Gulbenkian, Sala 1, 11 Dez. 2007
©Ana Carvalho

Ontem teve lugar um interessante encontro de profissionais de museus para levar à discussão o tema « Como tornar os museus acessíveis? ».

No Mundo dos Museus esteve presente neste debate. De acordo com o que foi dito, esta foi a primeira vez que se reuniram para a realização de um encontro: ICOM-Portugal, APOM e IMC, o que não deixa de ser um balanço positivo a priori.

Entre as intervenções dos representantes da mesa de debate, nomeadamente, João Castel-Branco Pereira (Presidente ICOM-Portugal), Manuel Bairrão Oleiro (Director IMC), José d’Encarnação (administrador da lista de discussão MUSEUM), João Neto (Presidente da APOM) e Luís Raposo (membro dos corpos gerentes da CN do ICOM) e as intervenções dos presentes na sala, eis algumas impressões que nos deixou o debate:

Os museus portugueses debatem-se contra algumas dificuldades, nomeadamente, com os hábitos culturais da sociedade portuguesa, que em geral não tem o hábito de ir aos museus, contra algum analfabetismo e um poder de compra dos portugueses cada vez mais reduzido. Por outro lado, verifica-se a ausência de uma política cultural integrada por parte do governo que vise a mudança deste paradigma na sociedade portuguesa.

A responsabilização por este « estado de coisas » é repartida, ou seja, é da sociedade civil em contexto mais alargado e em particular dos profissionais, que tendo conhecimento desta situação não reinvindica, não se manifesta.

A ideia de que existe uma « crise de subdesenvolvimento social » geral em Portugal, que se traduz numa política cultural fragmentada na sua acção, mais virada para acções pontuais sem procurar uma planificação a médio e longo prazo, e que muito concretamente nos remete para a ausência evidente de uma política museológica. A este propósito, saliente-se a crítica a uma política do governo, actualmente mais virada para a realização de « eventos », com maior preocupação no imediato e no efémero. Neste contexto, foram citadas as teorias de Francis Haskell sobre a crise dos museus anglosaxónicos no que diz respeito a efemeridade das exposições « acontecimento » em que o marketing cultural predomina sobremaneira.

Numa perspectiva de encarar alguns dos problemas com que se debatem os museus portugueses foi sugerido:

– Luta por uma maior desburocratização dos serviços.
– Aumento da automomia dos museus.
– Uma maior acção militante dos museus e respectivos profissionais sobre as questões principais problemas da museologia actual.
– Maior responsabilização dos museus no que diz respeito à avaliação de programas, exposições, etc.
– Combate à precarização dos contratos de trabalho nos museus.
– Exigir um aumento do orçamento para os museus.
– Flexibilização da entrada de recursos humanos nos museus e o direito ao trabalho de profissionais de museologia.
– A necessidade de captar públicos.
– Melhoria das acessibilidades, sejam de ordem física, intelectual e económica aos museus.
– Criação de uma galeria nacional de exposições temporárias em articulação com os museus nacionais.
– Criação de uma « ilha de museus » na praça do Comércio que concentrasse os museus históricos.
– Estabelecer estratégias a longo prazo para os museus, por oposição a uma estratégia de carácter pontual em função dos projectos.
– Necessidade de maior flexibilidade dos museus para a captação de recursos financeiros de mecenato.
– Necessidade de debater o papel dos museus e sua relação com o turismo em Portugal.
– Necessidade de refexão sobre o papel actual do profissional de museologia em Portugal.

Em jeito de conclusão, podemos dizer que o debate foi alargado aos mais diferentes problemas que afectam hoje em dia a museologia em Portugal, arriscando-se a ser mais um debate sobre a crise que atravessam os museus portugueses na actual conjuntura. A necessidade urgente de se realizarem mais debates, temáticos e incisivos, ficou claramente demonstrado pela pluralidade dos tópicos abordados.

Publicités

Étiquettes : , , , , , , , , , , , , ,

5 Réponses to “Debate sobre a crise nos Museus portugueses?”

  1. Ana Carvalho Says:

    Por falar em acessibilidades de ordem física aos museus, gostaria de registar a minha perplexidade perante uma situação que me aconteceu no Museu Berardo.
    Não são apenas as pessoas com dificuldades de locomoção que encontram obstáculos nos museus. Uma pessoa acompanhada de criança de colo também se vê a braços com algumas dificuldades. Muito recentemente, constatámos essa realidade nas instalações, recentemente adaptadas a Museu Berardo, bem como na cafetaria Quadrante do CCB.
    Na cafetaria, para aceder a parte de almoços apenas o podemos fazer ultrapassando os degraus, que ao levar um carrinho de bebés não o podemos fazer sem a ajuda de alguém. Evidentemente que, poderão dizer, deve existir uma outra entrada, que imagino que exista, ainda que isso implique umas centenas de metros e não existir nenhuma sinalização que nos remeta para isso. Ainda na cafetaria, as instalações sanitárias não têm fraldários. O mesmo se passa no Museu Berardo, as instalações sanitárias que utilizámos também não dispunham de fraldário. Visitem o museu, sim, mas é melhor deixar as crianças em casa. Está assim tão mal o museu Berardo que não pode equipar mais convenientemente as suas instalações de modo a permitir mair conforto e acessibilidade para as nossas crianças e mães?

  2. José Lima Says:

    Olá Ana,

    Achei, muito interessante a temática tratada no debate!

    De facto existem ainda muitos impedimentos que condicionam muitas vezes as visitas ao museu. Relativamente à captação de públicos, existem ainda museus que se encontram muitas vezes encerrados nos dias de feriado, ou até mesmo aos fins de semana.
    Tenho-me percebido disso pela minha experiência e também através de comentários de colegas e amigos.
    Essa situação verifica-se muitas vezes, em meios de menor densidade populacional.
    Por exemplo, considerando a cidade de Tomar, de onde sou natural, com um um alto valor em termos patrimoniais e que recebe diariamente inúmeros turistas e visitantes, é constrangedor sentir que os museus se encontram muitas vezes fechados, impedindo o acesso a essas pessoas que muitas vezes se encontram de passagem e que dificilmente poderão regressar.
    Que explicações poderam ser dadas para justificar esta falha? Falta de funcionários que assegurem as visitas? Má organização? Pelo que me parece, estas interrogações prendem-se muitas vezes com os magros orçamentos disponíveis nestas instituições, que impossibilitam a permanencia de funcionários nas mesmas, que assegurem os serviços, permitindo que as portas estejam abertas ao público.

    Saudações.

  3. Ana Carvalho Says:

    Existem muitas razões para a acessibiliade aos museus ainda ser motivo de debate, pois evidencia claramente que há muito ainda por fazer neste domínio. No entanto, mais do que recursos humanos e financeiros, muitas vezes, « pecamos » pela falta de abertura do museu para fora, algum comodismo e inércia perante a mudança…Temos que mudar este estado de coisas, que começa por cada um de nós.
    Saudações,
    Ana Carvalho

  4. inconveniente99 Says:

    Tomei a liberdade de citar algumas frases do seu texto no meu blog. Quero felicitá-la pelo seu blog, muito cuidado e tão importante para a divulgação do em museologia se tem feito.

  5. inconveniente99 Says:

    Esqueci-me de referir o site do blog….

Laisser un commentaire

Entrez vos coordonnées ci-dessous ou cliquez sur une icône pour vous connecter:

Logo WordPress.com

Vous commentez à l'aide de votre compte WordPress.com. Déconnexion / Changer )

Image Twitter

Vous commentez à l'aide de votre compte Twitter. Déconnexion / Changer )

Photo Facebook

Vous commentez à l'aide de votre compte Facebook. Déconnexion / Changer )

Photo Google+

Vous commentez à l'aide de votre compte Google+. Déconnexion / Changer )

Connexion à %s


%d blogueurs aiment cette page :