Carta aberta aos promotores da carta dirigida ao Primeiro-Ministro, em defesa do projecto do Museu Nacional dos Coches

Carta aberta aos promotores da carta dirigida ao Primeiro-Ministro, em defesa do projecto do Museu Nacional dos Coches.

Não sendo propriamente uma surpresa, não podemos deixar de dizer que foi com alguma estranheza que tomámos conhecimento do conteúdo e da forma dada à vossa carta ao verificarmos a necessidade que tiveram de alicerçá-la numa espécie de “parada de estrelas” (sinal da fraqueza dos vossos argumentos ?) e ainda por se terem dado ao trabalho de realizarem um exercício tão grandiloquente quando afinal mais não visam do que defender um projecto de arquitectura e o seu autor. Respeitamos em todo o caso a vossa iniciativa e agradecemos o tom cordato com que se referem às posições aparentemente contrárias às vossas. Estamos até convictos que haverá entre nós pontes suficientes para que possamos discutir serenamente este assunto, com a estima que mutuamente nos reconhecemos – assim nos seja dado o tempo útil para o efeito.

Pelo nosso lado, procuramos basear-nos em argumentos técnicos e de política patrimonial, especialmente na vertente museológica. Quando nos dirigimos ao Primeiro-Ministro, fizemo-lo em nosso próprio nome, dispensando o recurso sempre fácil a listas de suporte, recheadas de personalidades sonantes dos meios artísticos ou sociais – que, em todo o caso, podem facilmente encontrar em petição contrária à vossa, que circula na Internet, promovida e amplamente assinada, entre outros cidadãos e personalidades, por alguns colegas vossos, arquitectos de obra, reflexão e empenho social amplamente reconhecidos.

O vosso cavalo de batalha é, pois, um projecto de arquitectura e um arquitecto. Mas acontece que pelo nosso lado nunca discutimos a valia ou a adequação do projecto do arquitecto Paulo Mendes da Rocha; muito menos discutimos as suas virtudes cidadãs, embora tenhamos tomado nota de que, em entrevista pública, não se coibiu de fazer o contrário em relação à dimensão cívica de quem pensa (talvez mal) que se opõe ao este projecto. À partida, estaremos sempre disponíveis para analisar e eventualmente aplaudir este ou outro projecto de arquitectura para um qualquer museu novo, desde que tal museu faça museológica e socialmente sentido. Ou seja, a nossa argumentação situa-se muito mais a montante e é por ela que damos a cara. Move-nos a exigência de uma política de património e especificamente de museus democrática e esclarecida. E neste contexto o novo Museu dos Coches constitui apenas uma peça, importante, mas acessória. Poderíamos até em tese admitir que o mesmo, museu e projecto, seriam defensáveis, se tal fosse a conclusão a retirar de reflexão anterior, que reivindicamos e para a qual a vossa carta não acrescenta nada de significativo.

Repetimos: A questão essencial que esperaríamos ver respondida na vossa carta seria esclarecer qual a prioridade da construção de um novo Museu dos Coches no âmbito de uma política de cultura reflectida, de longa duração, desejavelmente discutida com os especialistas e contratualizada socialmente. E é isto que manifestamente não desenvolvem nos vossos argumentos, talvez porque o considerem de somenos ou porque não estão em condições técnicas para o fazer.

Ora, todos os que acompanhamos de perto o mundo dos museus portugueses, mormente os dos Ministério da Cultura, sabemos bem que tal opção não deveria constituir prioridade governativa e sabemos também, agora não tanto na qualidade de especialistas na matéria, mas na de cidadãos, que não podemos dar por adquirida uma tal decisão, aceitando-a como decorrente de uma qualquer iluminação providencial, irreversível por natureza. Muito menos nos deixamos encurralar na velha teoria do “ou nós, ou o caos”, uma vez que temos alternativas a propor para debate no caso do abandono, ou até da mera adaptação, do projecto do novo Museu dos Coches, permitindo explorar outras valências museológicas e outras necessidades sociais.
Em nosso entender o abandono da intenção de construção de um novo Museu dos Coches, ou a reprogramação do projecto já existente, não deve conduzir à paralisia, muito menos ao desperdício das verbas existentes para o efeito, mas sim à discussão de uma alternativa de investimento e de construção de cidade mais democrática, mais racional e mais útil para o País. Essa alternativa existe. Pode, por exemplo, ser a requalificação extremamente necessária de alguns museus do Ministério da Cultura situados em Lisboa (e demos já como exemplos os Museus de Arqueologia, de Arte Contemporânea / Chiado, de Arte Antiga, do Azulejo ou da Música). Ou pode também continuar a ser a da construção de um novo Museu que constitua um ícone do nosso tempo, dotado das mesmas funcionalidades, abertura à sociedade e rasgo de contemporaneidade que exaltadamente defendem na vossa carta com expressões nas quais todos nos podemos rever. Não percebemos bem o porquê da vossa fixação no projecto existente e mais ainda no museu adoptado. Porque esgotar a vossa capacidade criadora e argumentativa nos limites da defesa de um projecto de arquitectura, do seu arquitecto e do programa museológico que colocaram diante de vós, quando afinal existem alternativas socialmente mais úteis e mais potenciadoras de finalidades como a do incremento do turismo na zona de Belém ?
Esta questão das alternativas é muito importante. Se a opção política for a de concentrar todas as verbas disponíveis num só museu, então alguns de nós foram mais longe na apresentação de propostas alternativas e já indicaram que, a ser tomada a decisão da construção de um novo Museu Nacional de raiz, esse deveria ser um novo Museu Nacional de Arqueologia (MNA), porque de facto se justifica tal opção em termos de uma política museológica sustentada, e porque, então sim, se alcançaria a totalidade dos objectivos que afirmam na vossa carta desejar, fazendo-o porém através de uma hábil gestão do que dizem e do que omitem. Com efeito, o MNA é que é verdadeiramente um museu que corresponde a um projecto cívico de matriz republicana. Foi um museu concebido ainda em regime monárquico, por Leite de Vasconcelos, mas criado sobretudo pelo patrocínio político de Bernardino Machado. Foi depois um dos museus mais acarinhados durante a 1ª República, porque dava corpo a um dos seus ideais, o da reconstituição da matriz do “homem português” na sua profunda diacronia. Nestes termos, vê-se bem como existem alternativas mais credíveis à celebração da República através da construção de um novo museu !

A fixação de uma intenção política de celebração republicana no Museu dos Coches é neste preciso contexto não somente espúria, como até algo provocatória no seu espírito. Recordem-se as coisas como são, porque manifestamente é necessário avivar a memória: o actual Museu dos Coches foi criado pela Rainha Dona Amélia, que soube reconhecer o abandono em que se encontravam os mais de cem antigos coches da Casa Real (depositados nas cocheiras da Ajuda, do Calvário e da Praia dos Levantados), conseguindo do Rei Dom Carlos a cedência do antigo Picadeiro de Belém, ao tempo praticamente destituído de função e muito envelhecido, adaptado para museu por Rosendo Carvalheira que no Jornal Novidades, de 9 de Fevereiro de 1903, afirma: “Sua Majestade a Rainha é que lembrou a creação do museu. Eu sou apenas o executor do seu alto pensamento!”. Não haverá outras formas mais adequadas para celebrar o centenário da República do que dar nova morada aos coches reais ? Ou será que o fito é o da provocação pura e simples, aproveitando a celebração do centenário da República para destruir uma iniciativa monárquica, que nós temos por meritória ?

Acresce o óbvio: a verdadeira oportunidade para equacionar a localização mais adequada e digna para a arqueologia portuguesa, seria muito mais fácil e naturalmente alcançada perante esse contexto celebratório republicano, se a opção a seguir fosse a de um novo MNA, como indicámos a título meramente exemplificativo. Na situação actual, bem pelo contrário, o que vemos é que o projecto do novo Museu dos Coches conduziu a uma cascata de consequências, todas precariamente pensadas, que não apenas não garantirão ganhos acrescidos para a arqueologia portuguesa, como arrisca muito previsivelmente ocasionar danos gravíssimos na Cordoaria Nacional, ela própria Monumento Nacional, e no Museu de Arqueologia, se fosse por diante a intenção de o fazer instalar num local que tudo indica ser impróprio para o efeito.

Causa estranheza o carácter vago, quase se diria comprometido ou envergonhado, quando a vossa carta se refere a todo este impacte, que em nosso entender reveste gravidade porventura maior do que a da própria aplicação de verbas vultuosas na construção de uma obra arquitectónica destinada a dar resposta a uma necessidade, que consideramos falsa.

É aceitável a desfiguração da Cordoaria Nacional, para nela instalar armazéns, arquivos e supostamente um museu, que nada garante poder lá funcionar em condições adequadas ? Por outro lado, tendo presente que o plano de requalificação da margem ribeirinha de Lisboa prevê a criação de um pólo náutico em frente da Cordoaria Nacional, e todas as teorias da conservação recomendam a atribuição de usos compatíveis com as funções, significados e significantes da história anterior dos monumentos, perguntamos-vos ainda se será lógico retirar à Cordoaria a sua estrutural historicidade de raiz náutica para lhe impor um futuro uso arquivístico e museológico no âmbito da arqueologia ?

Acham bem que o Estado democrático concretize agora o projecto do Estado Novo para os Jerónimos, como se o Pais estivesse ainda sob tutela militar ? Ou será que defendem que toda a arqueologia portuguesa deveria ser localizada no sector oitocentista do Mosteiro dos Jerónimos, transferindo-se o Museu de Marinha para a Cordoaria Nacional ? É que só nesse cenário poderíamos considerar a vossa argumentação neste ponto como merecedora de ponderada análise
Mas, ainda que assim fosse, ou seja, ainda que se juntassem a nós e pugnassem por afectar a Cordoaria aos usos mais adequados que ele deve ter, libertando os Jerónimos oitocentistas para Museu de Arqueologia, conformemente ao programa do final da Monarquia de a 1ª República, subsistiria o carácter espúrio (quanto à celebração do centenário da República), desnecessário (quanto à definição de prioridades de uma política museológica nacional) e muito provavelmente contraproducente do novo Museu dos Coches.
Esta é uma última ideia que não queremos deixar de enfatizar (ela deveria aliás constituir a base de todas as decisões). O que faz o êxito do Museu dos Coches, o mais visitado museu da rede de museus do Ministério da Cultura ? A resposta tem ocupado os profissionais de museus e tem sido debatida em reuniões científicas da especialidade, provavelmente sem ter chegado ao vosso conhecimento. Caso contrário teriam já verificado que a enorme maioria dos visitantes do Museu dos Coches são estrangeiros, organizados em grupos excursionistas. Trata-se de um museu onde se dá tanto apreço ao conteúdo como ao continente, i.e., ao espaço envolvente, num conjunto estético mutuamente suportado – a beleza áulica dos coches exaltada num espaço tardo-barroco, que só ali pode fazer sentido. Trata-se além disso de um museu para visita rápida, integrado em circuitos turísticos locais e regionais.

Encerrar este Museu num ambiente arquitectónico contemporâneo cheio de efeitos de som e imagem pode retirar-lhe a alma que lhe confere sucesso. Só a custos muito elevados em promoção e publicidade se lhe garantirá eventualmente níveis de visita similares aos actuais, mas – dizem os especialistas – nunca muito superiores aos mesmos. Afirmar que o futuro museu dos Coches terá um milhão de visitantes ao ano, sem quaisquer estudos de suporte, vale tanto como a afirmação feita em tempos de que o futuro Museu do Côa teria mais visitantes do que a Torre de Belém. Vale o que vale. Isto é, não vale nada !

O mais dramático é que a prova do que afirmamos está feita. Depois da Expo 98, o Museu dos Coches, foi em grande parte transferido para esse recinto (para reparação da cobertura do espaço original), tendo tido muito menos visitantes do que no seu espaço próprio. Também aí o invólucro foi um pavilhão moderno, contemporâneo, tendencialmente “neutro”; e tinham sido criados hábitos recentes de visita à zona (onde existe um centro comercial que tem mais de 25 milhões de frequentadores por ano); mas os resultados foram os que foram.

Verificamos que têm agora, diríamos finamente, plena consciência que o espaço actual do Museu dos Coches não poderá servir como picadeiro (que na realidade quase nunca foi), esboroando-se assim a motivação inicial que, na cabeça de alguns, levou a pensar na procura de um espaço alternativo para o Museu dos Coches. E admitem que aí poderão continuar a ficar alguns coches. Mas das duas uma: ou ficariam aí os mais magnificentes, esvaziando assim de conteúdo, ainda mais, o novo edifício; ou reservariam para esse espaço apenas algumas peças, destinadas a conferir enquadramento a novos usos socioculturais – eufemismo usado para evitar dizer que se trata de usar este espaço em banquetes oficiais e sala de aluguer a privados.

Entendem, pois, que a melhor forma de comemorar a República é gastar algumas dezenas de milhões de euros num projecto tão polémico, dando destino tão pouco republicano ao espaço original ?
Por tudo isto dizemos que a vossa tomada de posição estreita em defesa de um projecto de arquitectura e de um arquitecto, pede demasiado em matéria de construção de cidade e de política patrimonial. Ora, contrariamente a vós, nós não pedimos muito.
Pedimos antes de tudo que se cumpram as promessas e os estudos que resultam de longa maturação e não sofra o País de vícios terceiro-mundistas dos factos consumados e das obras inúteis, destinadas a celebrar a grandeza dos governantes. Não é tolerável, por exemplo, que uma obra desta dimensão seja feita sem que o Governo obtenha o parecer, obrigatório por lei, do Conselho Nacional de Cultura, através da respectiva Secção de Museus.

Pedimos depois que se comece pelo princípio, ou seja, pelo levantamento do parque museológico e urbanístico de zona de Belém, para nele detectar virtualidades, abandonos e até e lacunas, conducentes estas porventura à construção de um novo museu, para o que temos várias alternativas a propor, que certamente podem aproveitar tanto os méritos do autor como do projecto de arquitectura já existentes, com as vantagens da sua maior utilidade social e do planeamento de circuitos integrados na zona de Belém, encontrando uma trama urbana, onde cada peça adquira o seu próprio lugar e se explorem as potencialidades acrescidas do conjunto.

Pedimos finalmente que o Governo da República respeite o programa eleitoral que o levou ao Poder. Se quer fazer um museu nacional novo, de raiz, pois faça um Museu Nacional de Arqueologia e reúna debaixo de um mesmo tecto institucional os diferentes serviços de arqueologia do Ministério da Cultura. Ou, se entender ser mais arrojado, que pense na criação em Belém de um novo museu que corresponda a necessidades sociais objectivas e possa melhor potenciar o turismo. Neste caso, que não fique o Governo por aí. Inicie a reorganização profunda de espaços e colecções, executando o projecto republicano para os Jerónimos, colocando, no todo ou em parte, o Museu de Marinha na Cordoaria Nacional, e retomando também, correlativamente, o projecto de ampliação do Museu Nacional de Arqueologia nos Jerónimos. Se no fim de tudo sobrar ainda dinheiro, pois então aproveite-o para cumprir as promessas feitas quanto à requalificação do Museu do Chiado, assim como na satisfação das justas expectativas sociais quanto à melhoria das condições de instalação do Museu Nacional de Arte Antiga, do Museu Nacional do Azulejo, do Museu da Música ou do Museu dos Coches no seu próprio local, apoiando o seu cuidadoso restauro, assim como a conservação condigna da sua colecção, disponibilizando os meios e os equipamentos necessários.

Alternativas são o que não falta. É tudo uma questão de formulação de prioridades de investimento e de construção democrática e esclarecida de cidade. Neste sentido, deixamos desde já o convite para que participem no encontro que muito brevemente iremos promover (“Política Museológica Nacional: como se fazem e desfazem museus”), certos de que na Política Cultural se justifica seguir igualmente as boas práticas da Política do Ambiente, i.e. a construção de políticas baseadas em consensos construídos com base na audição da sociedade e das associações científicas, profissionais e cívicas suas representativas.

Lisboa, em 24 de Março de 2009

Assinam,

O Secretariado Permanente da Plataforma pelo Património Cultural (PP-Cult)
Luís Raposo, Presidente da Comissão Nacional Portuguesa do Conselho Internacional de Museus (ICOM)
João Neto, Presidente da Associação Portuguesa de Museologia (APOM)
José Aguiar, Presidente da Comissão nacional Portuguesa do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS)
Hélder Ferreira, Presidente da Associação para a Promoção, Gestão e Desenvolvimento do Turismo Cultural Português (PROGESTUR)
João Carlos Caninas, Presidente da AG da Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente (CPADA)

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Carta divulgada pelo ICOM-PT

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Une Réponse to “Carta aberta aos promotores da carta dirigida ao Primeiro-Ministro, em defesa do projecto do Museu Nacional dos Coches”

  1. C Amaral Says:

    Não sou contra a construção de museus, pelo contrário. Um novo Museu de Arqueologia seria fantástico para Portugal, para a nossa cultura e para mostrarmos quem realmente somos. Esse seria sim, o grande Museu que tanta falta faz para a nossa lusa matriz.

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