Sobre o Seminário « Serviços educativos em espaços culturais »

Sessão de abertura do seminário « Serviços Educativos em Espaços Culturais »
Centro Cultural de Lagos
26 de Janeiro de 2010

Quando pensei escrever algumas linhas sobre este encontro, deparei-me com esta dificuldade. Como dar conta de um encontro tão rico no que diz respeito à partilha de experiências e pontos de vista, ainda que muitas vezes diferentes, mas muito estimulantes. De qualquer forma, gostaria de sublinhar alguns aspectos.

Uma das questões lançadas para o debate e reflexão foi a diversidade de designações existentes para o trabalho da educação nos museus. De facto, como se observou ao longo dos três dias, foram várias as terminologias utilizadas pelos participantes, seja ao nível da designação funcional dentro do museu ou entidade cultural, seja a um nível mais abrangente de caracterização deste trabalho ou de termos relacionados:

Serviço educativo/serviço educativo e de divulgação/projecto educativo/departamento de educação/extensão cultural/ plano de acção educativa/política educativa/oficinas/projecto cultural/programa educativo/oferta educativa

Susana Gomes da Silva sugeriu a adopção da designação “Educação museal”, em substituição da palavra “serviço educativo”, muito na linha anglo-saxónica que utiliza a expressão “Museum Education”.

Sobre o que se projecta como sendo o papel e as características da educação museal foram sendo referidas ao longo deste encontro algumas ideias-chave:

Os serviços educativos vão para além do trabalho com as escolas e das visitas guiadas; os serviços educativos não pretendem substituir o papel da escola, o museu pode e deve ser um espaço para a educação não formal; Para além disso, a educação museal pode significar: campo de experimentação; espaço de negociação e comunicação; espaço de criatividade e inovação; espaço de conexão e intersecção do lazer e da educação; proporcionar prazer e sentido lúdico; espaço que promove a diversidade cultural e uma abordagem plural; espaço para a participação das pessoas; espaço de intervenção social; espaços de mediação e construção partilhada de saberes e experiências; mediação que vai para além da transmissão e que promove a construção de conhecimentos; espaço de relevância; espaço dinamizador; espaço para dar lugar a experiências significativas; deve promover iniciativas relevantes; proporcionar qualidade da experiência; espaço para a educação artística; espaço para a activação das memórias e promoção de diálogos; incluir projectos de proximidade; programar com as crianças; estabelecer pontes com as comunidades; os serviços educativos devem trabalhar com públicos dos 0 aos 99 anos; é essencial acreditar no trabalho educativo que se faz, saber afirmá-lo, conhecer aprofundadamente o objecto de estudo do trabalho educativo (ex. colecção, artista), conhecer os públicos, nomeadamente as suas motivações e as suas realidades sócio-culturais e por sua vez escolher a programação em função das suas necessidades; premissas para o trabalho educativo: o território como ponto de partida e da comunidade local ao alargamento; é preciso partilhar com os públicos os objectivos e a missão do trabalho educativo; a importância da definição da missão de cada serviço educativo; espaço para pensar, fazer e participar, ou seja todas as formas de aprender são essenciais para as competências da vida, o trabalho educativo nos museus deve reflectir esta filosofia; todos têm talentos, competências e cabe ao educador identificar estas valências e neste sentido o serviço educativo pode ser um espaço para encontrar esses talentos; espaço para construir, descobrir, aprender e criar; trabalhar/colaborar com outras instituições no espaço físico do museu (interior e exterior) e também fora do museu; é preciso mudar o conceito de educação no museu, no sentido em que se reclama que a educação deve ir para além da tradução do olhar; é preciso não infantilizar os públicos; é necessário elaborar estratégias a longo prazo que tenham em conta as especificidades de cada museu, respectivo enquadramento no meio e comunidade onde se insere e, assim, definir uma metodologia adequada; é necessário avaliar o impacto das estratégias desenvolvidas; todos os programas e projectos desenvolvidos e experimentados devem ser objecto de avaliação; é necessário estabelecer critérios de avaliação e publicar os resultados obtidos; implementar a seguinte filosofia: “concentre-se nos pontos fortes, reconheça as fraquezas, agarre as oportunidades e proteja-se contra as ameaças”;

Sobre alguns dos problemas identificados na educação museal, eis as ideias-chave:

Em Portugal não há um campo de estudo organizado em torno da educação museal; é área de trabalho com assimetrias graves à escala nacional; nem todos os museus têm um serviço educativo ou departamento para desenvolver trabalho nesta área; não se formulam teorias nem se definem objectivos a longo prazo; a educação nos museus é ainda considerada por muitos como a “tradução” do discurso apresentado na colecção do museu; há um problema que se vê repetido constantemente, que é o de transpor para um museu um projecto que já foi bem sucedido noutro museu sem olhar a especificidades próprias de cada museu; tensão entre a curadoria, a escolha das exposições e o serviço ou departamento de educação; situação laboral pouco estável; falta de reconhecimento profissional: não há uma associação; muitos dos profissionais activos nesta área não têm na sua formação de base estudos na área da educação; não existe formação especializada em serviços educativos; ausência de avaliação dos projectos educativos;

Sobre o educador de museus, houve quem fizesse referência à proposta de María Acaso López-Bosch (Universidad Complutense de Madrid), apresentada aqui muito sumariamente:

– Monitor: transmite informação
– Educador: além de transmitir, interage com o visitante e constrói pensamento estético

Ideias para o futuro:

Precisamos de gente mais especializada, mais informada; é necessário maior proximidade e envolvimento entre a academia e a prática nas questões da formação. Foi lançada a ideia de criar uma rede informal de profissionais, potenciando a troca de saberes e experiências, nomeadamente a discussão através da organização de mesas de trabalho sobre os problemas que afectam esta área. Uma rede onde os profissionais se possam conhecer e encontrar, um terreno fértil onde possam brotar novas experiências…

Sobre os conferencistas e os resumos das comunicações pode encontrar mais informação no site da AGECAL: http://www.agecal.pt/

Publicités

3 Réponses to “Sobre o Seminário « Serviços educativos em espaços culturais »”

  1. Milene Chiovatto Says:

    Caros todos,
    temos as mesmas inquietações aqui no Brasil acerca das práticas educativas em museus. Neste sentido, temos feito um esforço conjunto para impulsionar a profissionalização da área e a adoção de alguns pressuspostos para esta prática.
    Em termos de designação temos, cada vez mais, assumido a terminologia mediador, como aqule responsável por estabelecer diálogos produtivos no momento do encontrto entre o público e os objetos do museu.
    Pena que não soube deste encontro antes, pois teria participado, com certeza!
    Espero receber notícias deste blog e iniciarmos contatos

    • Ana Carvalho Says:

      Cara Milene,
      Foi uma pena que não tenha tido conhecimento do seminário. Foi de facto bastante positivo o debate que ali se proporcionou. Aqui em Portugal temos muito interesse em trocar experiências com os nossos colegas brasileiros. Esteja à vontade para sugerir formas de colaboração. Esta é uma área que está a começar a afirmar-se nos museus portugueses, mas tem ainda um longo caminho a percorrer.
      Saudações museológicas,
      Ana Carvalho

  2. ReCose – uma rede de profissionais no facebook « No Mundo dos Museus… Says:

    […] âmbito de algumas conferências a que assisti. Refiro-me por exemplo à conferência sobre “Serviços educativos em espaços culturais“, que se realizou no Algarve (Janeiro 2010). Parece que a ideia materializou-se agora, usando […]

Laisser un commentaire

Entrez vos coordonnées ci-dessous ou cliquez sur une icône pour vous connecter:

Logo WordPress.com

Vous commentez à l'aide de votre compte WordPress.com. Déconnexion / Changer )

Image Twitter

Vous commentez à l'aide de votre compte Twitter. Déconnexion / Changer )

Photo Facebook

Vous commentez à l'aide de votre compte Facebook. Déconnexion / Changer )

Photo Google+

Vous commentez à l'aide de votre compte Google+. Déconnexion / Changer )

Connexion à %s


%d blogueurs aiment cette page :