Périplo pelos museus de Liverpool

Foto: Ana Carvalho, 2011

Ao percorrer a cidade a primeira impressão que se tem é que esta é uma cidade em franca regeneração. O centro foi objecto de um profundo reordenamento, tendo nascido no coração da cidade um grande e moderno centro comercial, no que isso tem de bom e de nefasto. Todavia, também se percebe que ainda há muito por fazer, pois muitos dos edifícios mais antigos precisam de ser recuperados. Note-se que Liverpool foi uma das cidades mais arrasadas pelos bombardeamentos alemães na segunda guerra mundial, uma vez que era na época um dos mais importantes portos do Reino Unido. Os museus também fazem parte do desenvolvimento operado das últimas décadas e o investimento tem sido considerável. Ao que tudo indica Liverpool é uma das cidades britânicas com mais museus e galerias por m2. A alavancar o desenvolvimento cultural dos últimos anos terá sido determinante o facto de Liverpool ter sido escolhida como capital europeia da cultura 2008. Não esquecendo também a distinção da UNESCO em 2004, que incluiu Liverpool na lista do património cultural mundial. A renovação e ampliação do World Museum Liverpool (2005) e da Walker Art Gallery (2002), a criação do International Slavery Museum (2007) e o novo Museum of Liverpool (a abrir ainda este ano), concebido para ser um dos maiores museus de cidade do mundo, são alguns dos resultados tangíveis operados nesta última década.

Grosso modo, podemos dividir a cidade, em termos museológicos, em dois núcleos principais. O primeiro e mais antigo é o designado “cultural quarter”, onde se localizam o World Museum Liverpool (antigo Liverpool Museum), a biblioteca pública e a Walker Art Gallery entre outros edifícios de carácter monumental, um complexo arquitectónico concebido no séc. XIX.

Foto: Ana Carvalho, 2011

World Museum Liverpool reabriu em 2005 após um longo período de reformulação que recua à segunda guerra mundial, quando grande parte do edifício foi destruído por uma bomba incendiária. O museu não esteve fechado todo esse tempo (1941-2005), mas estava reduzido em termos de espaço e apenas apresentava parte das suas colecções devido a esses constrangimentos. O ano de 2005 representou, de certo modo, o culminar de um longo caminho, uma metamorfose em vários sentidos, a começar pelo nome e pela renovação dos espaços, agora ampliados, com as galerias “Horseshoe” a voltarem a fazer parte do museu, anteriormente ocupadas por um instituto universitário. Este é um museu de carácter enciclopédico, onde podemos encontrar quase todo o tipo de colecções, uma lógica que se compreende pela história do museu. A visita ao museu começou logo pela manhã. Chegada à entrada do World Museum Liverpool esperavam pela abertura já várias pessoas, sobretudo famílias, o que não deixou de me surpreender. Ao longo da manhã o número de visitantes aumentou significativamente e por volta da hora do almoço era quase impossível arranjar lugar para sentar fosse no restaurante fosse no café. Claramente os espaços existentes para restauração não estão dimensionados para a afluência de visitantes do museu (que inclui também uma sala para piqueniques) e o que parece ser um sinal positivo pode tornar-se rapidamente um problema, se não for resolvido entretanto. Poderia pensar-se que esta afluência foi casuística, mas a verdade é que de todas as vezes que visitei o museu deparei-me com o mesmo cenário. E de facto os números confirmam, este é um dos museus mais visitados da cidade com cerca de 623 745 visitas por ano, atendendo aos números de 2009/2010. A fórmula secreta para juntar as famílias parece ter sido a junção das seguintes possibilidades de visita no mesmo edifício: um aquário, um planetário, dinossauros, insectos, múmias, um centro de história natural e um centro de arqueologia e etnografia, ambos do tipo “hands-on” e, ainda, um teatro que articula as colecções com performances. Provavelmente a explicação é bem mais complexa, mas não deixa de ser vantajoso reunir um conjunto de valências que naturalmente cativam um público mais jovem. E claro, a entrada é livre tanto para o museu como para as actividades. Aliás, todos os museus sob a alçada da agência “National Museums Liverpool” têm entrada gratuita (i.e World Museum Liverpool, Walker Art Gallery, Merseyside Maritime Museum, International Slavery Museum, Lady Lever Art Gallery, Sudley House, Museum of Liverpool e National Conservation Centre), que gere a maioria dos museus de Liverpool.

Apesar de tudo isto, o museu marca diferentes ritmos e se é verdade que a maioria dos espaços são concorridos pelas famílias, a galeria dedicada às culturas do mundo marca um compasso diferente, mais reservado, mais contido também do ponto de vista da museografia. São cerca de 1200m2, organizados em função de quatro áreas geográficas: África, Américas, Oceânia e Ásia, um modelo claramente eurocêntrico. São muitos os objectos, mas uma sábia disponibilização da informação em diferentes níveis permite a sua apreciação sem ruído. Ao longo da exposição percebemos claramente porque razão estão ali aqueles objectos, atendendo a um discurso sustentado nas biografias dos próprios objectos. A partilha do “voz curatorial”, se assim se pode chamar, com outras personalidades exteriores ao museu, é recorrente ao longo de todo o discurso, à semelhança do que é feito também noutros museus (ex. Horniman Museum). Merece, todavia, uma nota negativa o mau estado de conservação em que se encontram algumas das tabelas e a falta de iluminação dos textos em vários pontos da exposição. Uma iluminação condicionada dos objectos é compreensível à luz de uma estratégia de conservação preventiva, mas no caso dos textos, compromete-se a sua acessibilidade e interpretação. Para além disso, o vídeo de introdução à exposição, cujo narrador assume um tom demasiado teatralizado, ao funcionar em modo contínuo tem um efeito de ruído para o visitante.

Foto: Ana Carvalho, 2011

A Walker Art Gallery, como muitas colecções de arte públicas nasce do coleccionismo oitocentista. Muito do que se pode ver neste museu, de pintura, escultura e artes decorativas, é o gosto e a visão de coleccionadores como William Roscoe e muitos exemplos da pintura académica inglesa da época. Para quem se interesse pelo movimento pré-rafaelita vai também encontrar neste museu muitos exemplos representativos do movimento artístico que juntou vários artistas ingleses no séc. XIX.

O segundo núcleo de museus da cidade situa-se em Albert Dock. As docas, criadas no séc. XIX pelo príncipe Alberto, foram a partir dos anos 80 do século passado objecto de um plano de revitalização tendo em conta o estado de degradação que tinham alcançado. Equacionou-se a sua demolição, mas obviamente a opção foi regenerar esta zona do ponto de vista cultural. A Tate Liverpool, o Merseyside Maritime Museum, o International Slavery Museum e ainda, o museu dedicado aos Beatles (Beatles Story) são os museus que pode aqui encontrar.

Foto: Ana Carvalho, 2011

A Tate Liverpool abriu ao público em 1988. Foi um dos primeiros museus a instalar-se nas docas. “DLA Piper series: This is sculpture” é o título da exposição “semi-permanente” (Maio 2009-Abril 2012) actualmente em exibição no museu, e conta a história da escultura moderna e contemporânea, através das escolhas e enquadramentos de três curadores diferentes. Assim, são apresentadas três histórias: “Sculpture: the Physical World”, “Sculpture Remixed” e “The Sculpture of Language”. Gostei particularmente de “Sculpture Remixed” pelo factor surpresa e diversão. Se optar pela sugestão dos curadores poderá colocar uns “headphones” durante a exposição e escolher entre duas opções musicais. Para este efeito, os curadores convidaram vários DJ’s de Liverpool para criar uma “playlist” para esta exposição. As opções musicais variam de acordo com cada dia da semana. E a experiência foi curiosa. Era quase irresistível não balançar ao som da música enquanto se apreciavam as esculturas. Também toda a cenografia é pouco convencional, incluindo a iluminação. Espelhos, muitos espelhos, globos de discoteca e inclusive uma pista de dança no centro da exposição. Só lamento que a exposição não incluísse legendas mais aprofundadas sobre cada escultura, porque quem não quer ler pode sempre ignorá-las, mas quem quer saber mais sobre o tema não deixa de ficar frustrado. Na Tate também me chamou a atenção a “Response Room”, uma sala onde podemos assistir a um pequeno filme com os curadores da exposição a justificar o conceito subjacente à criação de cada um dos núcleos da exposição. Neste espaço podemos também deixar comentários, aliás a forma como é concebido parece compelir-nos a fazê-lo. Na parede estão afixados alguns comentários bem como as respectivas respostas pelo staff da Tate, deixando a ideia que a opinião de cada um é importante. Gostei também da “Family Room”, logo ao lado, um espaço para as famílias fazerem uma pausa. Os miúdos podem ler, desenhar e explorar o site da Tate kids, que contempla várias actividades e jogos.

Foto: Ana Carvalho, 2011

O International Slavery Museum abriu nas docas em 2007, substituindo uma exposição mais antiga sobre o tema (Transatlantic Slavery Gallery). O museu está instalado no terceiro piso do Merseyside Maritime Museum e para quem for mais distraído poderá andar às voltas nas docas para encontrar o museu se não souber antecipadamente que no mesmo edifício estão os dois museus. O museu está organizado em três partes. A primeira parte refere-se à vida em África antes de começar o tráfico de escravos, talvez a menos interessante, dada a dificuldade de traduzir num pequeno espaço aquilo que é tão diverso e complexo, mesmo referindo-se apenas à África ocidental. O resultado não foi brilhante na minha opinião. Por outro lado, para conhecer melhor as culturas dos muitos povos africanos o World Museum Liverpool permite um maior entendimento dessa diversidade. A segunda parte contextualiza o tráfico de escravos no tempo e no espaço, chamando a atenção para as condições desumanas de todo este processo. A parafernália de sistemas multimédia utilizados acaba por dificultar a visita, muitas vezes em excesso, acabando por contaminar a experiência da visita com muitos sons à mistura. A terceira parte é dedicada às consequências da escravatura e do tráfico de pessoas. Tinha grandes expectativas e muitas delas saíram logradas. Gostava de ter encontrado mais informação sobre esse legado em Liverpool, os problemas de ontem já não são os de hoje, mas podemos falar de racismo e discriminação em Liverpool?

Foto: Ana Carvalho, 2011

Ainda resisti em visitar o museu dos Beatles, mas lá fui. Saí como entrei. E é um dos poucos museus de Liverpool com entrada paga.

Mas fora do “cultural quarter” e das docas há outros museus para explorar na cidade.

O plano para visitar o Mr Hardman’s Home Photographic Studio, uma casa-museu gerida pelo “National Trust” revelou-se uma frustração total. Sinalética inexistente até chegar à rua, e junto à porta de entrada a informação é lacunar, não havendo referência a horários e ficamos na dúvida se estamos de facto junto de um museu. Finalmente, lá encontramos um aviso na janela que anuncia que a casa-museu se encontra fechada para obras, remetendo para o site para mais informações. Curiosamente o “site” nada refere sobre o encerramento temporário do edifício.

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Foto: Ana Carvalho, 2011

O Victoria gallery & Museum foi o último museu a visitar. Foi ali que nasceu a Universidade de Liverpool. No final do séc. XIX este edifício foi criado com esse objectivo. Hoje é um museu (desde 2008) que nos dá a conhecer as colecções que a universidade foi acumulando, entre doações (ex. arte) e objectos vocacionados para o ensino e que hoje se tornaram objectos de carácter histórico. A visita vale a pena sobretudo pela exuberância do edifício neo-gótico e pelos seus interiores. A falta de informação sobre a história do edifício era escusada – os panfletos esgotaram, justificou a recepcionista.

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Une Réponse to “Périplo pelos museus de Liverpool”

  1. maria isabel leite Says:

    Cara Ana, gostei e partilhei no twitter sua experiência em Liverpool. No http://www.repensandomuseus.blogspot.com também faço análises e comentários sobre experiências museais. Seria ótimo se você pudesse ler o blog e comentar. Seria possível incluí-lo entre os seus listados blogs sobre museus?
    Agradeço desde já sua atenção e parabéns pelo seu blog! Bjs, Bel

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