Um périplo pelos museus de Copenhaga

Copenhaga
© Ana Carvalho, 2011

Esta foi a minha primeira visita ao país. Fui até Copenhaga especialmente para visitar o museu da cidade (Kobenhavns museum/Museum of Copenhagen). Acabei por visitar ainda dois dos museus nacionais mais icónicos, o National Museum of Denmark e o Statens Museum for Kunst (Danish National Gallery).

O Museum of Copenhagen foi a minha primeira paragem. “Becoming a Copenhagener” é uma das exposições temporárias do museu já sob a direcção de Jette Sandhal, fundadora do Museum of World Culture (2004), em Gotemburgo, e ex-directora do Te Papa Tongarewa, na Nova Zelândia. Para quem está familiarizado com o trabalho realizado por Sandhal reconhece a sua filosofia de trabalho: exposições com um discurso multivocal, participação das comunidades, utilização das novas tecnologias, objectos de diferente natureza: objectos históricos, objectos do quotidiano, objectos de carácter simbólico, instalações artísticas, filmes, fotografia, etc. O visitante é convidado quase sempre a participar, a ter experiências através do médium expositivo. A exposição é sobre a condição de ser imigrante em Copenhaga e as diferentes vagas de emigração, desde o séc. XVI à actualidade. Muitas comunidades estão ali representadas, desde os imigrantes dinamarqueses da província, aos ciganos, judeus, alemães, libaneses, etc. Descriminação, segregação e racismo atravessam a história de Copenhaga e fazem parte da realidade actual da cidade. Esta exposição encara o tema sem complexos, com frontalidade e irreverência. No final ficamos com a sensação que passamos a conhecer um pouco melhor a cidade, ligeiramente diferente do discurso propagandístico da cidade mais turística e mais visitada da Escandinávia. Foi uma das melhores experiências museológicas, sem margem para dúvidas. Todavia, nem todas as soluções museográficas contribuíam para uma visita confortável. Algumas legendas localizavam-se em posições pouco fáceis para leitura, falta de iluminação de algumas legendas, espaço para visionamento de filmes mal dimensionado. Para além disso, o problema da língua. A maior parte dos filmes não tinha legendas em inglês o que significou perda de muita informação, com muita pena minha dado o interesse dos temas.
No seguimento desta exposição desembocamos na exposição permanente do museu, mas o discurso é claramente outro. A opção é um discurso mais tradicional, povoado por uma infinitude de objectos, algumas recreações de ambiente de época, etc. Enfim, uma história demasiado longa para ser contada numa só visita.

The Wall, Museum of Copenhagen
© Ana Carvalho, 2011

De seguida visitei a principal praça da cidade, sobretudo para conhecer o “muro do museu”. O museu concebeu um muro digital do tipo “touch screen” que permite ao visitante descobrir as colecções do museu, sobretudo as fotográficas. O muro convida a participação das comunidades, podendo qualquer pessoa deixar comentários ou fazer o upload das suas fotografias sobre a cidade. Sobre os objectivos desta iniciativa, refere-se:

“The WALL is a dialogue about Copenhagen – its inhabitants, history and contemporary challenges. It is a rediscovery of the capital, a rallying point at street level where citizens can exchange memories, visions and mixed feelings about the city we live in. Through the WALL, you can tell your own stories about the different neighborhoods and their strengths and weaknesses, heroes, scapegoats and magical spaces. Or you can stroll back into history and explore the stories, themes and images already at the WALL. The WALL is a celebration of the city and its diversity, our lives and our tales. In the next 4 years the Wall will be set up in different spots of Copenhagen.” (Texto do museu)

Esta é uma iniciativa que se insere na nova estratégia de comunicação do museu e que se encontra nesta praça desde Maio de 2011. Por um lado, fiquei decepcionada com a qualidade de visionamento do ecrã e por outro, mais uma vez, língua, uma vez que a única língua disponível era o dinamarquês, o que limita a interpretação da informação. De qualquer forma parece-me uma solução inovadora e cujos efeitos será interessante avaliar a seu tempo.

Também me chamou a atenção uma outra iniciativa do museu junto do muro. A praça encontra-se em obras e decorrem trabalhos arqueológicos. Um cartaz divulga a realização de visitas guiadas às escavações, o que parece uma boa estratégia de serviço público, dando a conhecer à comunidade o trabalho do museu e a importância destes trabalhos para a história da cidade: “FREE GUIDED TOURS-Archeologists talk about the escavations at the City Hall Square”.

National Museum of Denmark
© Ana Carvalho, 2011

“Who are the Danes?” É com esta a pergunta que o folheto do museu nacional da Dinamarca me cativou para uma visita ao maior museu do país. Este é um discurso claramente nacionalista, que nos propõe um olhar sobre a história dos dinamarqueses, desde a pré-história até aos tempos modernos, balizados até ao ano de 2000. Nas galerias da pré-história as colecções arqueológicas são apresentadas de acordo com uma museografia depurada e elegante e relativamente recente.
Seguindo a organização cronológica do discurso segue-se a Idade Média e o Renascimento, que deverão ser as galerias mais antigas atendendo ao grafismo das tabelas, com um layout pouco apelativo e desactualizaado. Ainda neste piso estão musealizadas algumas áreas correspondentes do antigo palácio rococó do príncipe (Prinsens Palais) onde foram instaladas as colecções do museu desde o séc. XIX. Cedo se percebe que este não é um museu, mas vários museus dentro de um museu, que inclui a incorporação de colecções muito diversas, como é o caso de gabinetes de curiosidades do séc. XVIII, objectos da câmara de maravilhas real (Royal Kunstkammer, desmembrada em 1825) criada pelo rei Frederik III e que em 1655 adquiriu as colecções do físico dinamarquês Ole Worm – “Museum Wormianum”. O “Museum Wormianum” é para muitos uma imagem icónica da história da museologia.
Algumas das museografias de outros tempos, cuja forma de expor se cristalizou no tempo tornaram-se “per se” um objecto museológico. Este é o caso uma vitrine de um interior de uma quinta do séc. XIX, que foi exposto pela primeira vez numa exposição industrial em Copenhaga (1879), entre outros exemplos.
Na continuidade do discurso sobre quem são os dinamarqueses, a exposição permanente termina como uma galeria intitulada “Stories of Denmark 1660-2000”. Num primeiro momento pensei que seria expectável encontrar outras vozes no discurso, mas na realidade o que encontrei foi um discurso a monovocal dentro do que é comum encontrar. Trata-se da história da Dinamarca nos seus diferentes aspectos, como a vida no campo e na cidade, a religião, a política, a industrialização, a guerra, etc. Na verdade, acabamos por saber pouco sobre os quem são os dinamarqueses hoje. O único núcleo que poderia dar essa perspectiva localiza-se no final da exposição e intitula-se “Danskere 2000/Danes 2000”. O painel introdutório refere o seguinte:

“Eleven Danes tell about their lives and exhibit their belongings and photographs – a multitude of lives and lifestyles in Denmark today. The stories here are an extension of the TV series “Danes”, in which people filmed everyday events of their lives in the year 2000. Their recordings were edited by Denmark’s Radio 2 as short 2 minutes episodes – moments of life in Denmark.”

Para além de se poder questionar a representatividade das diferentes comunidades que fazem parte hoje de Copenhaga, que parece estar ausente, parece-me questionável o visionamento de vídeos na ausência de som e de legendas. Em jeito de conclusão pode dizer-se que a exposição diz pouco sobre quem são os dinamarqueses hoje pois está centrada no passado.
Mas o museu não termina aqui. Existem ainda muitas outras colecções, nomeadamente as colecções não-europeias – “Near Easter and Classical Antiquities” (que não consegui ver), e as colecções etnográficas, designadas como “Ethnographical Treasures”. Ao percorrer as galerias das colecções etnográficas, organizadas geograficamente, parecia percorrer as reservas, uma espécie de reservas visitáveis, onde vários objectos organizados, muitos deles por tipologias, são apresentados em grande número e diversidade. Em cada um das salas existia um painel multimédia que permitia aceder ao catálogo das colecções e à ficha de cada um dos objectos, o único sítio onde se podia aceder à informação sobre cada um dos objectos, apenas em dinamarquês, claro! Esta forma de apresentação ausente de contextualização aproxima-se um pouco da ideia de biblioteca, onde livros são colocados lado a lado, organizados dentro de uma determinada categoria. Neste caso temos objectos etnográficos, justapostos, reunidos de acordo com uma determinada categorização. Não me parece muito diferente.
E o museu continua, com o museu das crianças e outras coisas mais, que não tive tempo de explorar.

O Statens Museum for Kunst não difere muito de outras galerias de arte nacionais, com a sua fachada monumental neo-clássica. Notável é a intervenção arquitectónica de ampliação de que foi objecto recentemente (1998), articulando harmoniosamente o antigo edifício com o jardim através de uma fachada envidraçada.

Ampliação do Statens Museum for Kunst
© Ana Carvalho, 2011

Grande parte da exposição permanente é dedicada às colecções nacionais (séc. XVIII-XX, mas tem colecções a partir do séc. XIV, que neste momento não estão expostas), incluindo representações de outros artistas nórdicos. Para além disso, o museu inclui uma galeria dedicada à arte francesa do séc. XX, com alguns dos modernistas familiares: Derain, Modigliani, Matisse, etc.

Digna de nota é a solução encontrada pelo departamento de educação do museu para promover a relação do público com a arte. Trata-se de uma sala de desenho no seguimento da exposição, onde se apresentam várias esculturas e onde o visitante é convidado a desenhar.

Sala de desenho
© Ana Carvalho, 2011

Segundo o museu:

“To draw is to see. Drawing hones our sense of observation. Drawing connects us more closely to what we seek to understand. Drawing encourages us to select with care. Drawing produces an excellent feel for shadow, surface, texture, and for the relationship between them.” (texto de parede).

O visitante tem à sua disposição lápis, borrachas, afias, pranchas e papel. Várias famílias pareciam divertir-se.

Os dois museus nacionais têm entrada gratuita, excepção para as exposições temporárias que têm entrada paga, como é no caso do museu de arte.

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Une Réponse to “Um périplo pelos museus de Copenhaga”

  1. Luiza Monteiro Says:

    Bem interessante suas observações. Eis um texto que descreve com um olhar crítico profissional. Luiza Monteiro

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